sexta-feira, 4 de março de 2016

Papa João XXIII e o discurso inaugural do Concílio Vaticano II

Mais um texto antigo (de 2012), mas importante, sobre o discurso do Papa João XXIII.

Ano da Fé - 50 anos do Concílio Vaticano II
Wilson Jr – 04.12.2012 – Parte 1: Discurso inaugural do Papa João XXIII

·                   Discurso inaugural do Papa João XXIII

Em 11 de outubro de 1962, na abertura solene do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII fez um discurso direcionando o caminho que o Concílio deveria seguir. Destacaremos alguns pontos, para que, no decorrer do estudo (sobre o Concílio), não tenhamos desvios do seu reto propósito, de acordo com as intenções do Papa e, acima de tudo, conforme o Espírito de amor e verdade que guia e santifica a Igreja. 

Interessante como o Papa inicia o discurso, que está na íntegra no site do Vaticano: http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/speeches/1962/documents/hf_j-xxiii_spe_19621011_opening-council_po.html.

Ele diz que todos os concílios...testemunham claramente a vitalidade da Igreja Católica e constituem pontos luminosos da sua história” e que pretendeu “afirmar, mais uma vez, a continuidade do magistério eclesiástico”. Quem atribui que as intenções do Papa João XXIII era romper com a Igreja do passado não se baseia numa verdade objetiva. As “intenções” de João XXIII só Deus conhece, o que nós conhecemos é o que ele nos comunicou: que o Concílio, assim como todos os outros, seria um ponto luminoso para a Igreja e teria continuidade consigo mesma. Nesse primeiro ponto já vemos claramente como deveremos entender as proposições que serão feitas por um concílio que quis ser apenas pastoral, sem condenações nem proclamações de dogmas.

O grande problema, proposto ao mundo, depois de quase dois milênios, continua o mesmo. Cristo sempre a brilhar no centro da história e da vida; os homens ou estão com ele e com a sua Igreja, e então gozam da luz, da bondade, da ordem e da paz; ou estão sem ele, ou contra ele, e deliberadamente contra a sua Igreja: tornam-se motivo de confusão, causando aspereza nas relações humanas, e perigos contínuos de guerras fratricidas”.

Já há muito de significativo no que João XXIII falou até aqui. O problema dos homens, ao longo da história, é o mesmo: estar com Cristo e sua Igreja (com seus concílios a iluminar a vida dos homens, sempre em continuidade com a fé que recebeu do Senhor) ou estar contra Cristo (estando contra a sua Igreja).

Quando o Papa clama por “atualizações oportunas”, dentro do contexto de seu discurso, fica mais do que claro que fala da maneira de evangelizar, e não de ruptura com a doutrina da Igreja, evidentemente. O Papa revela um enorme otimismo, que não deixa de ser compreensível, pela situação em que se encontra (partindo do princípio de que ele realmente queria o melhor para a Igreja e para o mundo inteiro), iniciando um momento histórico na Igreja. Um esperançoso otimismo, depois de duas guerras mundiais terminadas, mas o tempo mostrou que sua esperança foi exageradamente otimista.

No exercício cotidiano do nosso ministério pastoral ferem nossos ouvidos sugestões de almas, ardorosas sem dúvida no zelo, mas não dotadas de grande sentido de discrição e moderação. Nos tempos atuais, elas não veem senão prevaricações e ruínas...Mas parece-nos que devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo”.

Há quem diga que nesses “profetas da desventura” estaria um recado a irmã Lúcia de Fátima, e seus insistentes apelos por penitência e conversão. O famoso terceiro segredo de Fátima deveria ter sido revelado em 1960, mas foi ignorado por João XXIII. Ela não era a única “profeta da desventura”: desde o século XIX, inúmeros avisos foram dados sobre dificuldades: Nossa Senhora das Graças, beata Ana Catarina Emmerich, são João Bosco, Nossa Senhora de La Salette, só pra citar alguns que não compartilharam o otimismo de João XXIII. Nem seus predecessores tiveram também esse otimismo: basta ver, por exemplo, Leão XIII e são Pio X, impressionadíssimos com os avisos de “desventuras” futuras. Também fica mais fácil falar agora, depois de algum tempo, mas na ocasião poderia parecer ao Papa, com o término da 2ª Guerra Mundial, que viriam dias melhores para a Igreja e para o mundo. Porém, poucos anos depois do término do Concílio, já se via como seu otimismo era exagerado, com a revolução cultural que tomou conta do mundo.

O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz”. Diante desta frase do Papa, como é que muitos, ainda hoje, podem ter a coragem de dizer que as “intenções” de João XXIII eram romper com o passado da Igreja? “É nosso dever não só conservar este tesouro precioso...” (o tesouro dos concílios anteriores) “...mas também dedicar-nos com vontade pronta e sem temor àquele trabalho hoje exigido, prosseguindo assim o caminho que a Igreja percorre há vinte séculos”.

Se aqueles que defendiam que o Papa João XXIII queria uma nova Igreja, rompendo com a do passado, ainda tem dúvidas, o parágrafo seguinte acaba com todas: “...Mas, da renovada, serena e tranquila adesão a todo o ensino da Igreja, na sua integridade e exatidão, como ainda brilha nas Atas Conciliares desde Trento até ao Vaticano I, o espírito cristão, católico e apostólico do mundo inteiro espera um progresso na penetração doutrinal e na formação das consciências; é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja profundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo”.

Aqui: ou estou maluco, ou o Papa dá sua adesão a todo ensino da Igreja e que esse ensino, certo e imutável, deve ser fielmente respeitado. O que ele pede, então, é um aprofundamento desse ensino para que ele penetre nos fiéis e seja uma resposta às exigências do tempo. Ele fala não de uma nova doutrina, mas de uma maneira mais eficaz de anunciar essa mesma doutrina.

Em seguida, ele dá uma diretriz para o modelo do Concílio, que vai diferente dos anteriores (pastoralmente): A Igreja sempre se opôs aos erros e “até os condenou com a maior severidade”. Agora, porém, “a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”. Aqui acrescento minha pobre contribuição: uma nobre intenção do Papa, mas ingênua e equivocada. A severidade da Igreja TEM que existir com os ERROS, sempre! A misericórdia com as pessoas, não com os erros. As aparentes boas intenções do Papa foram usadas por grupos que distorceram completamente o que ele disse que deveria ser a diretriz do Concílio. “...a Igreja não oferece aos homens de hoje riquezas caducas, não promete uma felicidade só terrena...” Vejam como a coisa pode ser distorcida: quando o Papa diz que a Igreja não oferece aos homens ‘riqueza caducas’ há quem diga que ele quer mudar o que a Igreja tem oferecido, por estar caduco. Mas, claramente, no contexto geral de seu discurso, as ‘riquezas caducas’ que ele fala são as do mundo, que satisfazem apenas aqui na terra. Só não vê quem não quer.

Então o Papa fala do esforço da Unidade: “...parece brilhar com tríplice raio de luz sobrenatural e benéfica: a unidade dos católicos entre si, que se deve manter exemplarmente firmíssima...” (que está cada vez mais difícil após o Concílio) “...a unidade de orações e desejos ardentes, com os quais os cristãos separados desta Sé Apostólica ambicionam unir-se conosco...” (não unirmos-nos a eles, mas eles unirem-se novamente conosco) “...por fim, a unidade na estima e no respeito para com a Igreja Católica, por parte daqueles que seguem ainda religiões não-cristãs” (‘Ainda’ seguem, mas um dia estarão conosco, na mesma fé). Como foram mal interpretadas essas palavras do Papa! Como foram distorcidas para um ecumenismo que abraça a todos os erros e nega somente...a verdade revelada por Cristo à sua Igreja! “Quanto a isso, é motivo de tristeza considerar como a maior parte do gênero humano, apesar de todos os homens terem sido remidos pelo sangue de Cristo, não partilhem daquelas fontes da graça divina que existem na Igreja Católica”.

A esperança de João XXIII é que o Concílio que se inicia seja uma “luz brilhante”. Coloca o Concílio sob a proteção dos santos, especialmente de Nossa Senhora (mas sem dar atenção aos seus avisos), também obviamente de Nosso Senhor Jesus Cristo, e assim termina o discurso.

Só para dar um exemplo concreto de como as palavras do Papa são utilizadas de maneira errada: num texto sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II, do falecido padre José Comblin, conhecido teólogo da libertação, ele diz: “houve o discurso de abertura de João XXIII, que rompia decididamente com a tradição dos papas anteriores” (revista Adista Documenti nº 68, 24-09-2011). O discurso que “rompeu” com a tradição foi esse que vimos acima. Só posso tirar cinco conclusões dessa afirmação do padre José Comblim:

1.      Não estamos falando do mesmo discurso (pode ter sido mais de um?);
2.       O discurso que está disponível no site do Vaticano foi modificado;
3.       Ou eu ou o padre não compreendemos bem o discurso;
4.       Ele, propositadamente, distorceu o discurso de acordo com seus interesses;
5.       Eu distorci o que o Papa disse no discurso de acordo com minhas opiniões.

Mais uma vez repito: somente Deus conhece as intenções. Vou ser sincero: não acredito que o padre José Comblim não tenha entendido o que o Papa falou. Ele era muito inteligente para não entender (a não ser por uma cegueira espiritual, obstinando-se em suas próprias convicções, afastando-se da Igreja; o que seria possível a qualquer um). Resta que ele usou de um recurso desonesto para tentar convencer a outros que o Papa disse o que não disse. Seria possível que ele tivesse citado o discurso de João XXIII sem tê-lo lido? Seria imprudência e também desonestidade. Que Deus tenha misericórdia de sua alma!


Que Nossa Senhora nos mantenha na Igreja de seu Filho, unidos ao Papa e ao Magistério infalível dessa mesma Igreja! Assim seja!

Wilson Junior

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

João Paulo II e a "Ecclesia de Eucharistia"

     O que aconteceu com o Papa João Paulo II no decorrer de seu pontificado? Se nos primeiros anos havia um ecumenista apaixonado e empolgado com o Concílio Vaticano II, nos seus últimos anos houve uma mudança significativa.

     Teria sido o atentado sofrido em 1981, quando foi baleado? Seria a aproximação com o Cardeal Ratzinger, que João Paulo II tornou Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé? Seria um fruto do jubileu do ano 2000?

     Como explicar, por exemplo, que o mesmo Papa que, em 1986, convocou uma reunião com os líderes das principais religiões do mundo em Assis, na Itália, onde aconteceram coisas abomináveis (um ídolo budista foi colocado em cima do sacrário para os budistas presentes adorarem, as imagens de Nossa Senhora foram todas retiradas para não desagradar os presentes, etc), e que dava a entender que o Ecumenismo relativista era um caminho sem volta, assina um documento, no ano 2000, chamado "Dominus Iesus", onde reafirma de maneira firme a Santa Igreja Católica? O documento, escrito pelo Cardeal Ratzinger, tem o aval do Papa João Paulo II e causou espanto na época, como um freio impensável nesse ecumenismo irresponsável que estava sendo praticado (pelo próprio João Paulo II anteriormente, diga-se de passagem), dizendo inclusive coisas que o católico está obrigado a crer (essa linguagem no pós Concílio Vaticano II quase não se viu).

     Não posso também deixar de notar o contraste entre as preocupações do Vaticano (com João Paulo II) e a CNBB. Enquanto João Paulo consagrava os anos de 1997/1999 à Santíssima Trindade, em preparação ao jubileu do ano 2000 (1997 foi o ano de Jesus, 1998 o do Espírito Santo e 1999 o do Pai), a CNBB estava preocupada com a situação dos encarcerados, da água, do vento, de qualquer coisa, menos a fé. Em 2003 (o ano do Rosário) o Papa João Paulo II lança um documento que mudaria a minha vida, tenho que admitir, embora eu não o tenha lido na época em que foi lançado, mas somente alguns anos depois: "Ecclesia de Eucharistia", e é aqui que na verdade eu quero chegar.

     "A Igreja vive da Eucaristia!", inicia o documento, na minha opinião de 'zé ninguém' o melhor de João Paulo II. Quantos católicos que choraram de emoção com a canonização de João Paulo II conhecem o que ele escreveu? Diante dos incontáveis abusos litúrgicos cometidos a partir da Reforma Litúrgica do Papa Paulo VI, quem poderia esperar que o Papa João Paulo iria reafirmar a santa Missa como "o sacrifício da cruz que se perpetua através dos séculos" (nº 11). Quem poderia imaginar que João Paulo II faria de novo lembrar, neste documento, o Concílio de Trento? "Como não admirar as exposições doutrinais dos decretos sobre a Santíssima Eucaristia e sobre o Santo Sacrifício da Missa promulgados pelo Concílio de Trento? Aquelas páginas guiaram a teologia e a catequese nos séculos sucessivos, permanecendo ainda como ponto de referência dogmático para a incessante renovação e crescimento do povo de Deus na sua fé e amor à Eucaristia" (nº 9). As instruções do Concílio de Trento não só permanecem ainda hoje, mas permanecerão para sempre! Fazem parte da nossa fé católica! Quantos devotos de são João Paulo II ao menos procuram conhecer o que diz este Concílio?
   
     "Não há dúvidas de que a reforma litúrgica do Concílio", o do Vaticano II, "trouxe grandes vantagens para uma participação mais consciente, ativa e frutuosa dos fiéis no santo sacrifício do altar...a par destas luzes, não faltam sombras, infelizmente". Sim, João Paulo II está dizendo que alguns frutos da reforma litúrgica não foram bons. "Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa". Ou seja, a Missa não é um encontro fraterno, uma reunião de amigos, uma festa ou qualquer outra definição moderna que querem nos fazer acreditar. A Missa é um sacrifício, e não só isso, é o sacrifício da cruz do Calvário! "O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício". Quantos devotos de são João Paulo II não acham que a Missa é somente para recebermos Jesus na hóstia? No entanto, a Missa é muito mais: "Em virtude de sua íntima relação com o sacrifício do Gólgota, a Eucaristia é sacrifício em sentido próprio, e não apenas em sentido genérico como se se tratasse simplesmente da oferta de Cristo aos fiéis para seu alimento espiritual". Reafirmou, assim, a doutrina ("sempre válida") do Concílio de Trento, para desespero dos progressistas. "Embora banquete, permanece sempre um banquete sacrificial, assinalado com o sangue derramado no Gólgota". Espantosas verdades católicas!
   
     João Paulo II também faz uma crítica velada ao Concílio Vaticano II, afinal, se a Igreja "vive da Eucaristia", como ele afirma, como pode o Concílio Vaticano II "não ter publicado qualquer documento específico sobre o mistério eucarístico"?

     "A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções". Um discurso pós-Concílio Vaticano II dispensar as ambiguidades? Impensável! Mas, ao menos em relação à Eucaristia, João Paulo bate firme! É preciso ter uma linguagem clara!

     O Papa incentiva fortemente o culto à Eucaristia fora da Missa também, ou seja, a adoração ao Santíssimo, as visitas ao sacrário, "é bom demorar-se com ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo predileto, deixar-se tocar pelo amor infinito do seu coração". Comparar a visita ao Santíssimo com são João, na última Ceia, quando reclinou a cabeça repousando no peito de Jesus foi genial, maravilhoso, chega a dar vontade de largar o teclado nesse momento e correr para lá, para o colo de Jesus!

     O Papa reafirma a importância de estar em comunhão com a Igreja, a importância do sacramento da Ordem (para celebrar a Eucaristia), a importância (inacreditável) do sacerdote celebrar a Eucaristia todos os dias, mesmo sem (isso mesmo, S-E-M) a presença dos fiéis, a importância de estar unido ao bispo local e ao Papa, chama ao sacramento da Confissão para recebê-la e incentiva a comunhão espiritual aos que estão impedidos, lembrando o que parece que hoje ninguém quer dizer: receber a comunhão indevidamente é causa de "condenação, tormentos e redobrados castigos".

     "Se a Eucaristia torna presente o sacrifício redentor da cruz, perpetuando-se sacramentalmente, isso significa que deriva dela uma contínua exigência de conversão". Não, meus irmãos, a Missa não é uma festa. Presentes ao sacrifício do Calvário como devemos nos portar? Dançando e batendo palmas? Como estavam Nossa Senhora e são João no Calvário, por exemplo? E não foi assim que são Pio de Pietrelcina também ensinava a participar bem da santa Missa? Ele ensinava que devemos nos portar na Missa como Nossa Senhora e são João se portaram diante da Cruz do Senhor!
   
     A comparação que o Papa faz da mulher que "desperdiça" um vidro de perfume aos pés de Jesus em Betânia com a Igreja em não temer desperdiçar seus recursos "para exprimir o seu enlevo e adoração diante do dom incomensurável da Eucaristia" também foi genial. Não tenhamos medo de desperdiçar nosso tempo deste modo!

     O Papa lembra, em relação à música, as "inspiradas melodias gregorianas". Quantos devotos de são João Paulo II já se interessaram em, ao menos, conhecer o canto gregoriano? Na conclusão do documento traz os versos de uma música maravilhosa de Mozart: "Ave, verum corpus natum de Maria Virgine, / vere passum, immolatum, in cruce pro homine!".  Quantos devotos de são João Paulo II se interessam pelo latim e pela música sacra?

     João Paulo II lamenta que, "nos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, não faltaram abusos, que foram motivo de sofrimento para muitos". Clama a obediência às normas litúrgicas e anuncia que pedirá que se escreva um documento específico ditando essas normas mais uma vez. Seria a "Redemptiones Sacramentum", escrita pelo Cardeal Arinze (se não me engano) e que também foi excelente.

     Por fim, como não poderia deixar de ser, fala de santa Maria, mulher "eucarística". "Existe, pois, uma profunda analogia entre o fiat pronunciado por Maria, em resposta às palavras do Anjo, e o amém que cada fiel pronuncia quando recebe o Corpo do Senhor".  O Papa tenta imaginar o que Nossa Senhora ("o primeiro sacrário da história") sentia ao receber a comunhão das mãos dos apóstolos, o mesmo Cristo que ela carregou no ventre! "Impossível imaginar!"

     Esse João Paulo II que nos presenteou com esse documento espetacular em 2003 é o mesmo que eleito foi em 1978? O mesmo Papa que, aparentemente, não quis ouvir as denúncias contra o fundador dos Legionários de Cristo, no México, de que ele tinha vida escandalosa (tudo comprovado posteriormente)? O mesmo que, embora inegavelmente um Papa mariano, não quis consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, como pediu Nossa Senhora em Fátima? O mesmo Papa que beijou o Alcorão? O mesmo João Paulo II que incentivou a Teologia da Libertação, dizendo-a como oportuna e necessária, depois foi quem a desmantelou de maneira mais forte (junto com o Cardeal Ratzinger). Mudanças aconteceram no decorrer de seu pontificado. Graças a Deus, para melhor, muito melhor! Santo? Os tradicionalistas dizem NÃO, mas o Papa Francisco disse SIM. Pode a Igreja errar numa canonização? Esse é assunto para outro texto. A mudança de João Paulo II terá sido uma graça do jubileu do ano 2000? Transformar um Papa? Se foi, peço a Deus que o jubileu extraordinário da misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, tenha o mesmo efeito.

     Para aqueles que tem João Paulo II como santo de devoção, seria pedir demais que conheçam o que ele ensinou? Já leram algo desse Papa? A "Ecclesia de Eucharistia" seria um excelente começo e, diria mais, se houver preguiça em ler todos os seus escritos (que são muitos mesmo), esse em especial é de leitura obrigatória.

Wilson Junior
   

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Discurso do Papa Paulo VI na ONU em 1965

     Quem me conhece sabe que não tenho nenhuma estima para com o pontificado de Paulo VI, que reinou na Igreja Católica entre 1962 e 1978 (se não me engano; cito de cabeça). Nem vou (ainda) começar a enumerar os problemas de seu pontificado, mas, em homenagem ao 50º aniversário do Concílio Vaticano II, deixo registrada minha análise do discurso do (beato) Papa Paulo VI na assembléia das Nações Unidas, em 4 de outubro de 1965, que tirei do livro "Vaticano II - Mensagens, Discursos, Documentos" (Ed. Paulinas). Também não é muito cômodo para um católico criticar (mesmo que seja de maneira construtiva) o Papa, mas o CDC (Código de Direito Canônico) me ampara nas preocupações em relação à fé, e um discurso público merece ser avaliado publicamente.


     Poucas vezes um discurso foi tão infeliz, partindo de um Papa. Tudo bem, Paulo VI não foi um grande Papa. O esforço que se faz no Vaticano para canonizá-lo é um escândalo e prova que as pessoas que lá estão não merecem confiança.

     A Igreja é infalível, o Papa é infalível, mas somente nas condições que o Concílio Vaticano I ensinou. Por mais horroroso que tenha sido o discurso de Paulo VI na ONU, ele não tem nenhum peso na doutrina da Igreja e em sua infalibilidade, mas, mostra o pensamento desse Papa. Não é uma entrevista ao vivo ou um improviso, onde declarações infelizes acontecem ou palavras são más interpretadas, mas um discurso programado, onde o Papa diz exatamente o que ele quer dizer.

     E o que ele disse nesse discurso?

     Neste discurso inacreditável Paulo VI saúda os membros da ONU, diz não ter nenhuma "ambição de poder temporal" e que "as Nações Unidas representam o caminho obrigatório para a paz mundial". E eu na minha ingenuidade pensando que só Cristo poderia nos dar a paz! A paz passa pela ONU obrigatoriamente! Não caia da cadeira ainda, isso é só o início do discurso!

     Paulo VI equipara o trabalho da ONU com o da Igreja Católica e clama (pasmem!) por um governo único mundial: "quase diríamos que sois caracterizados, na ordem temporal, pelo que a Igreja Católica procura ser na espiritual: única e universal". Procura ser??? E conclui Paulo VI: "quem não vê nisso o caminho para o estabelecimento de uma autoridade mundial, capaz de agir eficazmente nos planos jurídico e político?". O Papa vislumbra um governo único mundial, vindo da ONU, e o que diz a isso? "repetimos aqui o nosso voto: prossegui!".

     Mas não é só isso: a ONU vai nos ensinar a paz: "Ensinais aos seres humanos a paz. A ONU é a grande escola em que se recebe essa educação".

     Paulo VI tem o mesmo otimismo do (santo) Papa João XXIII e diz que só teremos armas defensivas "enquanto o homem for fraco, volúvel e mau", ou seja...sempre? Ou será que ele acha que o homem, ignorando a mancha do Pecado Original, que nos deu uma natureza decaída, um dia será forte e bom, com suas próprias forças, com a ONU governando-o?

     A ONU é quase canonizada por Paulo VI, que lhe atribui 'quase' uma missão sagrada: "Sentimos que sois os intérpretes do que há de mais alto na sabedoria humana, diríamos quase seu caráter sagrado". É pouca coisa? E quem é esse "sentimos"? Quem mais sente assim junto com o Papa?

     No final do discurso, Paulo VI clama por uma "parada, um momento de recolhimento, de reflexão, de oração quase". A preocupação do Papa chega a "quase" pedir para que rezem. E por que?

     "O perigo não vem nem do progresso nem da ciência, que poderão, ao contrário, resolver alguns dos grandes problemas da humanidade, quando bem utilizados. O verdadeiro perigo está no ser humano, que dispõe de instrumentos cada dia mais poderosos, tanto para sua ruína, quanto para suas maiores conquistas", ou seja, o grande perigo é uma guerra nuclear, e não perdermos nossas almas para toda a eternidade (que bobagem!).

     São esses os "princípios espirituais" que o Papa pede? "Para nós, porém, e para todos os que acolhem a inefável revelação que Cristo nos fez dele, é o Deus vivo, Pai de todos os seres humanos". Para nós é Cristo, para outros pode ser outro, o que importa é que somos todos filhos de Deus. E eu, ingenuamente, pensando que o Batismo é que me tornava filho de Deus. E eu pensando que Cristo é para todos! Sou mesmo muito ingênuo!

     Pode o discurso de um Papa (beatificado!) ser tão infeliz?

     E o que é pior: o Papa Francisco segue na mesma linha do beato Paulo VI, dá pra perceber na sua encíclica ecológica, no seu vídeo ecumênico e até na bula que proclamou o jubileu da misericórdia. Tempos difíceis!

     Wilson Junior

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ENTREVISTAS

     Mais de um mês sem postagens, mas o blog não está abandonado!!

     Na quaresma me dedicarei exclusivamente ao blog, deixando de lado um pouco o facebook e o what's up. A idéia de realizar entrevistas é antiga, e falta-nos o material necessário para uma boa filmagem, com imagem e som.

     Resolvi começar os testes e logo postarei o primeiro entrevistado.

     Wilson Junior

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

PAZ e AMOR em CRISTO (P.A.C.)

         No final de 1999 ou início de 2000, no extinto jornal paroquial KOINONIA, foi publicada uma reportagem sobre a História dos grupos jovens da Nossa Senhora da Glória. O primeiro grupo jovem foi o P.A.C. e reproduzo abaixo na íntegra. Claro que há falhas (nem sequer coloco o ano em que foi fundado o PAC) mas ficou bem legal. Foram entrevistados ex-integrantes, pessoas antigas da Paróquia e até o padre Sebastião.

A HISTÓRIA DOS GRUPOS JOVENS DA NOSSA SENHORA DA GLÓRIA- parte 1 – O P.A.C.
Por Wilson Junior

     Mergulhar nos escritos e na história do 1º grupo jovem da nossa paróquia, o P.A.C. (Paz e Amor em Cristo), foi para mim uma grande emoção, foi como fazer parte do grupo. Sinto-me recompensado em ter conhecido um pouco da história da paróquia N. S. da Glória.

     Mas o que fez com que o P.A.C. recebesse tantos elogios (até de quem não participou do grupo), e que lembrassem dele com saudade?

O PAC FOI O MELHOR GRUPO QUE JÁ TEVE NA NOSSA PARÓQUIA” (Raimunda Guedes, do Apostolado da Oração)
     
     As suas reuniões se davam aos domingos e sempre encerrava com a Missa das 18h. O grupo era tão numeroso (chegou a ter cerca de 120 integrantes!!!) que tinha várias equipes dentro dele: equipes de música, de relações públicas, de liturgia, de diversões, etc. “Éramos muito ativos, promovíamos festivais, torneios, passeios, mas tudo muito superficial, de pouca espiritualidade. Não se criou uma estrutura espiritual nos integrantes para que pudessem perseverar e encontrar seu lugar na Igreja”, declarou Wilton, que hoje participa do grupo de oração Ismael, na Capela São Joaquim e S. Ana, em Ramos. “Saí do grupo porque descobri que meu carisma era trabalhar nas ruas, nas favelas. Se o PAC montasse, na época, uma equipe para trabalhar com jovens nas favelas, eu teria ficado”, completou.

     “Eram muito poucos os que levavam a sério a parte espiritual. O padre Tião, naquela época, também, não aceitava a Renovação Carismática; ele e o Cosme entravam muito em atrito por causa disto”, declarou Sonia Costa, que se sentia mais à vontade na equipe de favelas do que no grupo jovem. “O povo da equipe de favelas era caloroso, diferente. O povo do PAC era muito frio”.

     Alguns foram saindo para a equipe de favelas, da PJ (Pastoral da Juventude), outros foram se afastando, alguns até com idéias protestantes, como o Fábio, que declarou ao KOINONIA: “Quando eu estava no PAC discordava de vários pontos da doutrina católica e fui me afastando. Respeito muito, mas não dá pra aceitar o culto a Maria e aos santos, as imagens, as tradições, etc”.

     Também tiveram os seus problemas, além de muitos de seus integrantes não levarem a sério o trabalho, havia ainda uma rivalidade com o MEJ, que fez com o que o padre Tião cobrasse que fizessem trabalhos em conjunto.

O PAC ERA FANTÁSTICO; COMO SE FALA HOJE DOS GRUPOS DE ORAÇÃO, ANTES SE FALAVAM DOS GRUPOS JOVENS, E O PAC MARCOU ÉPOCA” (Padre Sebastião)
    
     Também a quadrilha de festa junina do PAC gerou confusão. “O problema é que o Cosme (que estava até pouco tempo na Comunidade Cefas, mas que começou no PAC), passou a inscrever a quadrilha em tudo que era torneio aí fora, e a coisa se perdeu. Eu fui o 1º a cair fora; dançar na paróquia, para atrair as pessoas para a festa da Igreja é uma coisa, mas disputar torneios de quadrilha não tinha mais nada a ver com o grupo jovem, com a evangelização”, declarou Wilton. “Houve uma época em que muitos tiveram que escolher entre ficar no PAC ou na quadrilha, e muitos escolheram a quadrilha!”, declarou Ronaldo, hoje coordenador da Crisma na nossa Paróquia, e que, nessa época, era do MEJ.

     Em 1984 a então coordenadora Líbia (quase fundadora do grupo) marcou reunião e abandonou a coordenação, o grupo jovem e a paróquia, ao que parece, magoada com todos do grupo. Foi o começo da decadência total do grupo, que culminou com o seu fim, em 1987. Na ata do dia 12/10/86 chegaram a citar que gostariam de fazer um jornal para divulgar os acontecimentos da paróquia, mas não houve tempo. Em 17/05/87 a última ata dizia: “Está difícil de levarmos adiante, pois os componentes são muito poucos. O nosso coordenador (Eduardo) entregou o cargo e saiu do grupo. Outros componentes se dizem do grupo mas não comparecem à reunião”.

     O grupo jovem PAC, que nasceu antes mesmo do que a Paróquia (!!!), chegou ao fim, mas marcou época na história da nossa paróquia e ainda hoje é inesquecível para muitos.

     Termino esta matéria com a declaração da Margareth (Magui), na época em que o PAC terminou: “Foram 11 anos e 9 meses de participação minha no PAC, passei minha adolescência e juventude aqui. É claro que nunca esquecerei todos os momentos vividos. Toda despedida é triste e é assim que me sinto. Mas, com a graça de Deus, despeço-me com a sensação de ter feito e entregue o melhor de mim”.


(Wilson Junior faz parte da Catequese e da equipe do jornal KOINONIA)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

PLATÃO, O MITO DA CAVERNA E A SANTA MISSA

          Há poucos dias postei no facebook o texto do famoso "MITO DA CAVERNA" do filósofo grego PLATÃO. É que achei num antigo site (http://www.flogao.com.br/vasjun/blog/2201170) uma comparação entre o texto do filósofo grego e a Santa Missa. Eu pensei em fazer algumas alterações antes de postar aqui, mas preferi manter o original, mesmo que hoje pudesse fazer algumas revisões do que escrevi (em março de 2007, ou seja, cerca de 8 anos atrás). Achei interessante também por estarmos bem perto do Natal. É hora de saber o que é a Santa Missa. Segue na íntegra abaixo:

PLATÃO, O MITO DA CAVERNA E A SANTA MISSA

Wilson V.M. Junior 14.03.2007

Aparentemente, que ligação pode haver entre o filósofo grego Platão e seu “Mito da caverna” com a Santa Missa? Primeiramente, é necessário saber o que diz o tal “Mito (ou alegoria) da caverna”, para poder relacionar ou não com a Santa Missa. E ainda antes, é necessário saber quem foi Platão. 

Arístocles de Atenas (apelidado Platão) nasceu no ano de 427 a.C., na Grécia. Foi o primeiro filósofo a elaborar uma teoria sobre a política, na obra A REPÚBLICA. Foi aluno (apaixonado) de outro grande filósofo: Sócrates. E foi professor de outro: Aristóteles. Nesta mesma obra de Platão (“A República”) está descrito o “Mito da caverna”, tratando do deslocamento da posição cômoda da ignorância para a dor provocada pela lucidez. “A Alegoria da Caverna é, com certeza, um dos quadros mais belos sobre o poder libertador da filosofia”, diz Cristina de Souza Agostini, na revista “Mente, Cérebro & Filosofia” nº 1. 

No mito da caverna é narrado o seguinte: “imagine uma caverna subterrânea onde se encontram prisioneiros atados nas pernas e nos pescoços de modo a não poderem virar a cabeça, forçados a olhar sempre para a frente, tendo por detrás deles uma fogueira que queima ao longe. Na parede para o qual estão a olhar continuamente, vêem-se as sombras das marionetes manipuladas que passam sobre o muro situado atrás deles. Tais homens acham que não há outras coisas além daquilo que vêem: pensam ser as sombras a realidade” (tirado da revista 'Mente, Cérebro & Filosofia' n°1). 

Qual a relação com a Santa Missa? Quando voltei à Igreja Católica, através da Renovação Carismática, em 1995, sempre ouvi orietarem que a Missa era o culto mais importante, mas vendo (na prática) uma empolgação muito maior pelos grupos de oração carismáticos. A Missa, para mim, era um momento de ouvir a Palavra de Deus (Bíblia), de encontrar os irmãos, de louvarmos a Jesus (e recebê-lo), presente de maneira real na Santa Eucaristia, ressuscitado. Mas que surpresa descobrir, com o tempo (e que tempo! Dez anos depois!) que eu estava ainda como o homem acorrentado na caverna subterrânea de Platão (é óbvio que o sentido que Platão dá a essa alegoria não é o mesmo que eu estarei dando aqui, pois faço uma adaptação à Santa Missa, para que possamos aproveitá-la). Pensava eu que, se durante o grupo de oração fosse oferecida a Sagrada Comunhão, este seria muito melhor e mais completo do que a Missa, que às vezes a achava repetitiva, monótona, parada. Estava eu acorrentado!

Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus verdadeiro e próprio sacrifício, ou que oferecer-se Cristo não é mais que dar-se-nos em alimento, seja excomungado” (Cânon 1 da santa Missa, Concílio de Trento). Que tremenda afirmação do Concílio de Trento! Quer dizer que não vamos à Missa somente para receber o Corpo de Cristo? Quer dizer que a Missa é um “sacrifício”? Muitas vezes ouvia até falarem que a Missa era um sacrifício, mas não entendia, afinal, as Missas estavam muito mais para festa do que para sacrifício! Parece pouca coisa, mas ter a Missa como um sacrifício muda tudo. “Se alguém disser que o sacrifício da Missa é somente de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício consumado na cruz, mas que não é propiciatório...seja excomungado” (Cânon 3 da Missa, Concílio de Trento). A Missa já não era, como eu pensava, apenas um momento de ouvir a Palavra de Deus e receber o Corpo de Cristo, nem somente um momento de louvor e agradecimento, mas essencialmente um SACRIFÍCIO. Eram os grilhões que me aprisionavam à caverna que estavam sendo destruídos, mas há ainda um longo caminho. Continuemos com o relato do “Mito da caverna”:

“Digamos então que, por acaso, um desses prisioneiros fosse solto de seus grilhões e trazido para fora. Com certeza, os olhos lhe doeriam, bem como todo o corpo. A posição à qual ele estava habituado atrofiou seus músculos e acostumou seus olhos à escuridão”. E meus olhos estavam começando a doer. A noção de sacrifício, se realmente crermos, muda toda a concepção que temos da Santa Missa. Como conciliar um momento como o da “Paz” nas Missas novas (como aconteceu no último domingo, na minha Paróquia), cantando uma música famosa na RCC: “vamos cantar, cantar na paz do meu Senhor Jesus...vamos sorrir, sorrir na paz do meu Senhor Jesus...” no mesmo momento em que o Cristo (Cordeiro) é imolado no altar? Como cantar “vamos sorrir...” segundos antes do sacerdote partir o Cristo (e ele morrer)? Ou é ignorância ou é falta de fé! Questionando essas coisas, meus olhos começaram a doer...estava indo contra o que fui ensinado. A posição em que eu estava atrofiou-me para questionar as coisas, afinal, confiava que aquilo que estavam me ensinando era o ensinamento da Igreja! Não era...

Voltando ao “Mito da caverna”: “Saído da caverna, primeiro seria aconselhável a prática de exercícios leves para acostumar o corpo ao movimento, bem como os olhos à luz. Para começar, o homem deveria olhar para as sombras que existem no mundo terreno, depois para as imagens dos objetos refletidas na água, e por fim os próprios objetos. A partir daí o ex-prisioneiro seria capaz de contemplar o céu, as estrelas e a luz durante a noite, até sua completa adaptação ao mundo superior. Só depois estaria capacitado para contemplar o sol no seu próprio lugar, e já não mais sua imagem refletida. Conheceria, então, que esse astro é o grande responsável pelas estações, pelos anos, a causa de tudo aquilo que, antes, ele e seus companheiros só viam em esboços. Assim, o homem que se põe a pensar, aparece como o dilacerador dos laços do conformismo com a experiência ordinária e com as opiniões recebidas. O progresso para o patamar iluminado é descrito como a viagem realizada da penumbra em direção à luz. Diferentemente da maioria passiva, aquele que se dispõe a fazer uso de sua inteligência faz algo por si mesmo e pelos demais quando questiona e espalha as sementes da insatisfação, do inconformismo e da reflexão”. 

Esses exercícios para ir acostumando a vista atrofiada (até poder ter condições de olhar até mesmo o sol, ou seja Cristo) é o tempo, estudo e oração. Estudo dos ensinamentos da Igreja, e não do que diziam ser o ensinamento da Igreja. Que surpresa desagradável notar que nem sempre o padre ou os pregadores (da RCC) ensinavam o que a Igreja manda, seja por ignorância ou má fé. Fui ouvindo ao longo dos anos coisas como “batizar crianças é errado”, “o demônio não existe”, “o inferno não existe”, “a multiplicação dos pães e peixes não aconteceu, mas foi uma partilha”, “Qualquer um em qualquer religião pode chegar à Salvação seguindo fielmente ao deus que escolheu”, “só acredito no que está na Bíblia”, “aquele padre é bom, pena que não é renovado”, “o que vale é a experiência e não o que está escrito”. Mas que nó na minha cabeça quando via que o ensinamento da Igreja não mudou! Ela continua não concordando com tudo isso que é ensinado à revelia. Mas então porque ensinam errado? Ao ir me soltando dos grilhões (que me acorrentavam à caverna, onde eu só via sombras) e exercitando a vista e o corpo (com o estudo e a oração), uma grande dor se iniciou. Como me dá pena nos dias de hoje ouvir um sacerdote (como na formatura de um amigo meu no curso de Matter Eclesiae, na homilia da Missa na Paróquia Santa Rita, em Ramos) dizer: “feche seus olhos e imagine que você está num campo verde, florido, o céu está azul, o dia está lindo...respire fundo e sinta que dia maravilhoso! (isso durante a homilia!) Tem um rio correndo perto de você, siga em frente...agora imagine que Jesus está te esperando...converse com ele, sinta a presença de Deus falando com você...”. Ao fim da homilia ele diz: “vocês acabaram de ter uma experiência com Jesus!”. Quer dizer que hoje, para se ter uma experiência com Jesus, basta usar uma técnica de relaxamento? Se, durante o “imagine” do padre, ao invés de encontrar Jesus nesse campo, ele dissesse: “imagine que o pato Donald está lhe esperando...”. Teríamos tido uma experiência com o Pato Donald também? 

“Os que regressam à caverna, malgrado a má recepção dos antigos companheiros, que restaram apreensivos por causa dos gritos de dor dos ex-carcerários e pensaram ser o mundo superior a fonte das dores e do estrago da vista a que estes foram submetidos – pois já não reconhecem nas sombras a realidade das coisas e afirmam que por trás dessas aparências existem verdadeiras essências – são os único capazes de saber com segurança a verdade de cada coisa, e assim os únicos aptos ao governo”. Como conciliar palmas e aplausos a um momento onde Jesus está pregado na cruz? E não como mera recordação, mas o mesmo momento do Calvário? Como aceitar a tremenda festa que é realizada às vezes durante a Santa Missa? Como conciliar a noção de sacrifício com os “programas de auditório” que alguns padres fazem durante a Missa? Os olhos doem, o corpo sofre, e os antigos companheiros (como no Mito da caverna) nos abandonam, mas o caminho da cruz é esse. 

Antes, nunca me passou pela cabeça que a Missa tivesse sido diferente do que é hoje na maioria das Paróquias (a Missa nova). Não conhecia a (riquíssima) história litúrgica da Igreja Católica nem nunca havia sequer ouvido falar em Missa Tridentina. Vivia como se o mundo tivesse começado no meu nascimento...

Críticas poderiam ser feitas a Platão, que viveu antes de Cristo, mas não se pode deixar de reconhecer a inteligência do filósofo, e tentar tirar algo de bom dessa alegoria tão bem elaborada. Libertar-nos dos grilhões da ignorância em relação à Santa Missa, de início, é doloroso. Mas a reta compreensão desse mistério nos preenche de tal forma que por si só basta, sem necessitar de inovações para entreter e agradar a um público, cada vez mais descrente, justamente por sentir falta do essencial. A Missa nova, embora válida, esconde (com a ajuda dos sacerdotes celebrantes e até de bispos – com excessões, é claro) a noção de sacrifício, e faz com que se permaneça acorrentado no fundo da caverna, a não ser que o sacerdote seja explícito no seu ensinar. 

Quer fazer uma “experiência”? Procure saber o que a Igreja ensina nos seus documentos, no seu Magistério, na sua Tradição Apostólica, e compare com o que nos ensinam nas Paróquias. Espero que a desagradável surpresa que você vai ter lhe ajude a soltá-lo dos grilhões. Dê tempo ao tempo para ir acostumando seus olhos até poder finalmente enxergar a verdade. Esta é a “Libertação” querida por Deus: libertação do pecado e da ignorância, e não uma luta de classes, condenada pela Igreja, mas ainda ensinada também em muitas Paróquias. 



Referências para essa matéria:

Concílio de Trento 
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=concilios&artigo=trento&lang=bra#sessao22 

Mito da Caverna
Revista “Mente, Cérebro & Filosofia”, editora Duetto, edição especial n°1: “Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino – Pensadores da alma e das paixões”. A revista traz o link www.mentecerebro.com.br mas não encontrei essa edição que tenho no site.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A MENTIRA DE FÁTIMA


          Continuando no tema das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, eu trago do youtube um video e dois links polêmicos a princípio. O video acima é mais curto e traz a opinião de um padre português, Mário de Oliveira, que defende que as Aparições NÃO aconteceram, que foi inventado pela Igreja Católica por dinheiro.

          Aqui o link (15 min) onde procura-se desacreditar esse padre: https://www.youtube.com/watch?v=fiflETiVXb4. Aqui o link (29 min) de uma entrevista desse padre agora em 2015: https://www.youtube.com/watch?v=s41a8hCSyZM.

          Parece-me um padre sem fé, que não crê em milagres (ele diz isso na entrevista) e que não crê na Igreja. Vamos deixar algo bem claro: ele tem razão quando diz que não é obrigado a acreditar nas aparições de Fátima. A Igreja Católica não nos força a acreditar em aparições e revelações particulares, isso é verdade. Por mais estranho e horrível (para um católico) que possa parecer um padre não crer nas aparições de Fátima, é um direito dele. Realmente não faz parte da fé católica crer em aparições e revelações particulares. É bom que isso fique claro. A Igreja, quando reconhece uma Aparição (como a de Fátima) não está a dizer que Nossa Senhora apareceu, mas sim que nada do que aconteceu ali é contrário à Fé Católica. Em todo o restante o padre vai mal.

          Quando diz que a 'Senhora' que apareceu não conseguiu curar nem os próprios pastorinhos videntes (Jacinta e Francisco morreram crianças ainda de pneumonia), eu lembrei dos fariseus debochando de Jesus na cruz: "Salvou a outros, que salve a si mesmo!" (cito de cabeça). Ele achou absurdo Nossa Senhora mostrar o inferno às crianças e pedir-lhes que fizessem sacrifícios pela conversão dos pecadores. Talvez Nossa Senhora devesse ter perguntado a ele o que deveria mostrar às crianças, como se Ela não soubesse o que estava a fazer.

          Quando diz que Fátima gera muito dinheiro, bem, isso é inevitável! Se for por aí, JESUS gera dinheiro a quem quer se aproveitar. Em toda parte há pessoas que irão crer e outras que irão querer se aproveitar para ter alguma vantagem. Só podemos, nesse caso, avaliar a nós mesmos. Acho uma crítica válida sempre, nesses locais de peregrinação, orientar as pessoas à FÉ e não ao consumo, mas é inevitável. E assim como há lucros, há também muitos gastos. Daí a desacreditar as aparições por isso, é uma bobagem. Jerusalém também fatura com turistas de todo o mundo isso é, por acaso, prova de que Jesus é uma farsa? É claro que não.

          Ele (o padre Mário) apresenta como 'prova' que o cônego Formigão seria o responsável pela farsa e teria copiado as aparições de Lourdes, onde esteve pouco antes de começarem as de Fátima. Eu me pergunto: QUAL padre, bispo ou mesmo leigo que, tendo condições de visitar Lourdes (na França) não o faria? Se este tivesse sido o único padre em todo Portugal a fazer isso, até poderia ser estranho. Não é o caso.

          Na entrevista ele fala contra a Imagem de Fátima, que seria somente madeira. Meu Deus! É sério??? Ainda bem que ele falou! Bem que eu desconfiei que nenhuma pessoa fantasiada conseguiria ficar ali parada tanto tempo (como ela se alimenta?). Sem ironias agora, será que esse padre nunca estudou são Tomás de Aquino, que dizia: "Quando alguém se dirige a uma imagem, não é à imagem em si que se dirige, mas sim àquele a quem a imagem representa" (cito também de cabeça, desculpem-me não dar as referências).

          Sobre o milagre do sol, testemunhado por 70 mil pessoas e registrado na imprensa da época, nenhuma palavra. Como realizar esse falso milagre e ainda fazer com que os jornais da época concordassem com a farsa?

          E quanto às profecias que se cumpriram? O fim da Primeira Guerra, o início da Segunda...ele diz que foi adulterado o que Lucia falou. As 'provas' que ele apresenta não são nada mais que interpretações erradas de um padre que perdeu a fé. Lamentavelmente. 

          Não há como negar que algo aconteceu em Fátima em 1917. Se ele (o padre) dissesse que não acredita que foi Nossa Senhora que apareceu às crianças, ele não é obrigado a crer. Mas dizer que foi tudo inventado e uma farsa, aí ele dá uma 'prova' sim: de que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. 

          Ainda estarei voltando a esse tema. 

          Wilson Junior